Quando a economia comportamental explica a resistência do proprietário em aceitar o valor de mercado

apartamentos a venda em Peruíbe REMAX Brasil

Quando a economia comportamental explica a resistência do proprietário em aceitar o valor de mercado

Colocar um imóvel à venda raramente é um processo puramente matemático. Se a precificação dependesse apenas de metros quadrados, histórico de vendas na região e taxa de depreciação, o mercado imobiliário seria um ambiente de plena eficiência. Contudo, corretores deparam-se diariamente com uma barreira invisível, mas sólida: a psicologia do proprietário. O fenômeno que explica por que alguém insiste em pedir 20% acima do valor de mercado não é teimosia gratuita, mas um viés cognitivo conhecido como Efeito Dotação.

O peso emocional na etiqueta de preço

O Efeito Dotação ocorre quando atribuímos um valor superior a um objeto simplesmente porque ele nos pertence. Para o proprietário, o imóvel não é apenas um ativo financeiro; é o palco de memórias, o resultado de reformas escolhidas a dedo e o símbolo de anos de pagamento de financiamento. Quando o corretor apresenta uma avaliação técnica baseada em dados de fechamento de contratos vizinhos, o dono não vê apenas números. Ele vê a desvalorização da sua própria história.

Considere o caso real de um apartamento em um bairro nobre de São Paulo. O proprietário investiu em marcenaria de alto padrão e uma automação residencial completa há seis anos. No papel, a depreciação física e a obsolescência tecnológica tornam aquele investimento inicial quase irrelevante para um novo comprador. O proprietário, porém, soma cada real gasto na reforma ao valor de mercado atual, ignorando que o mercado paga pelo que o imóvel oferece de utilidade hoje, não pelo custo sentimental ou pelo gasto pretérito. Essa distorção é a causa número um de imóveis parados em portais imobiliários por meses a fio.

Aversão à perda e o ciclo da estagnação

Outro pilar da economia comportamental que dita o ritmo das negociações é a Aversão à Perda. Estudos indicam que a dor de perder um valor é psicologicamente duas vezes mais intensa do que o prazer de ganhar o mesmo montante. Ao aceitar uma oferta condizente com a realidade do mercado, o vendedor sente que está “perdendo” dinheiro em relação ao valor que ele mesmo definiu mentalmente.

Essa resistência cria um ciclo pernicioso:

O proprietário coloca o imóvel à venda por um valor inflado, movido pelo otimismo.

O imóvel fica “queimado” no mercado por falta de visitas ou propostas reais.

A cada mês sem venda, o proprietário acumula custos de condomínio e IPTU, aumentando a pressão financeira.

Quando finalmente decide baixar o preço, o imóvel já perdeu o apelo de novidade, forçando uma venda abaixo até mesmo do valor de mercado inicial.

A função do corretor como mediador da realidade

O papel do profissional de mediação imobiliária deixa de ser apenas a busca por compradores para se transformar em um exercício de gestão de expectativas. O corretor experiente precisa atuar como um filtro de realidade, apresentando dados concretos — como o tempo médio de venda na região e a diferença entre o preço pedido e o valor final de fechamento — para quebrar o viés cognitivo do cliente.

A transparência, nestes momentos, é uma ferramenta de venda. Mostrar relatórios de imóveis similares que foram vendidos recentemente permite que o proprietário se distancie do próprio ativo. É uma forma de despersonalizar a transação. Quando o vendedor percebe que o mercado não está punindo o seu patrimônio, mas apenas seguindo uma lógica de oferta e demanda, a resistência tende a diminuir.

Entender esses mecanismos psicológicos é o divisor de águas entre um imóvel que se transforma em capital líquido e um ativo que permanece estagnado. O mercado imobiliário é, antes de tudo, um jogo de percepções. Ajustar a percepção do vendedor é, frequentemente, o passo mais importante para assinar a escritura.

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